
8h30 da manhã aproximadamente. Estou parado no primeiro lugar de uma fila antes de um sinal vermelho em Lisboa, numa rua não muito movimentada. O tipo atrás de mim buzina no momento em que o sinal fica verde. Olho pelo espelho, vejo um Mercedes preto brilhante e ao volante um pintas, com fatiote janota, de óculos escuros e gel no cabelo. Fosse ele mais bonito, quase seria parecido comigo. Mas não. O pintas está a esbracejar e a mexer os lábios, e assim fica durante uns bons segundos, mesmo com os carros já em andamento. Quase o imagino a debitar filosofia: "Mexe-te car@lho!".
Esta ocorrência tira-me momentaneamente o sono e deixa-me revoltado. Ali estava no carro atrás do meu, o perfeito exemplo do tuga mais odioso. 30 e poucos anos, bom emprego, algum dinheiro, e duas boas doses de stress e tacanhez. Em boa verdade, não consigo evitar o pensamento de que o pintas é o tipo que chega ao escritório e não diz bom dia aos colegas. É o tipo que quando lhe apresentam alguém que não lhe é importante, estende a mão sem olhar para a pessoa e murmura "prazer" entre dentes. É o tipo que anda na auto-estrada a 180km/h no seu Mercedes, conta aos amigos que anda a 200, faz pouco dos que andam a 140 e indigna-se quando é multado. É o tipo que toda a vida viu cinema e ouviu música, mas cujo filme favorito é o "Perdido em Combate" com o Chuck Norris e a banda favorita os Delfins.
Claro que também é possível que seja simplesmente o tipo porreiro que acordou mal disposto ou a quem a mulher chagou a cabeça de manhã. Mas ainda assim, não quis perder a oportunidade de desabafar o que penso sobre o que por aqui vou vendo mais frequentemente do que gostaria.
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