Eu respeito o descanso dos meus pais.
Recordo ainda quando aprendi essa valiosa lição. Era eu um chavalito com os primeiros pelitos a despontar no buço, tive a infeliz ideia de acordar o meu pai com duas valentes palmas soadas ao pé do ouvido dele. Foi aí que se me acabou a ingenuidade. Foi aí, quando, ao invés de o ver acordar brincalhão e a simular um murro no meu ombro como quem diz "Que malandro me saíste!", o meu pai esbugalha os olhos, ameaça-me com o chinelo e atabalhoadamente balbucia algo como "Mas tás parvo, ó meu grande estafermo?!".
Desde então cultivei o simpático hábito de evitar ruídos desnecessários se percebo que os meus pais estão a dormir. Mantenho a televisão com o volume baixo, sou cuidadoso com os interruptores da luz, não deixo as portas baterem, e, quando as abro, tenho o cuidado de rodar a maçaneta antes de empurrar. Chego mesmo ao ponto de caminhar em meias pela casa, para evitar o subtil ruído das pantufas a agarrarem o chão.
Tudo muito bonito, mas não reconhecido. A triste verdade é que os meus pais se estão real e ostensivamente a cagar para estas pieguices todas. Reconheço que a idade não tem sido generosa para com as suas capacidades auditivas. Mas custa-me ser compreensivo quando, a meio da noite, me irrompem com estrondo pelo quarto adentro, me ofuscam com a luz do tecto, e me roubam o cobertor que havia deixado no chão, sem sequer se darem ao trabalho de tirar de cima dele as pantufas e meias que lá estavam pousadas, e que tanta falta me fizeram ao acordar para o frio da manhã seguinte.
Não, claramente não encontro retorno do respeito que invisto nesta relação filho-pais. Como é possível que os meus pais não tenham mais consideração pelo próprio, ainda por cima único, ainda por cima bondoso, filho, não sei dizer. Estou farto e frustrado e irritado com sucessivos anos de abuso!
E vou fazer algo quanto a isso! Ai vou vou!
O quê?
O lógico: descarregar nos meus futuros filhos!
:)