Lá na minha rua, éramos um grupo de 10 chavalitos que parávamos no parque para jogar à bola e variantes desportivas. Como o vólei com cordas das obras, o ténis com sacos do lixo, ou a parede (prática que enfurecia os vizinhos que vivam... do outro lado da parede...).
Eram bons tempos. Ao contrário do que acontece hoje, não precisava de andar 20 minutos de carro para ir ter com os amigos. Descia as escadas. Não precisava de dar toques para dizer “cheguei”. Assobiava três vezes ou gritava o nome do Costinha ou do Nuno e os xonés lá apareciam.
Foi uma pena quando a rua se tornou insegura. Um gandulo lá da zona chegou a perguntar-me se eu preferia levar uma facada ou um tiro... Fiquei abismado! O meu amigo Costinha sentado mesmo ao meu lado e aquele mânfio queria desperdiçar balas comigo?!
Antes disso, a única insegurança de que me lembro era o Zé Luís.
O Zé Luís era órfão e era masoquista.
Assim era conhecido porque estava sempre a levar na boca e parecia não se importar. E claro... um chavalito que não tem medo de levar na boca, torna-se uma lenda. Para os mais velhos lá da rua, era um bónus. Pessoalmente, o gajo assustava-me. E mais ainda depois daquela tarde, estava eu com a perna engessada, em que me deu um pontapé nas muletas. Nesse dia, fui mais cedo para casa. À entrada para o prédio, cruzei-me com um vizinho mais velho, o Mauro, e expliquei-lhe o que se passava. Ele bateu palmas e respondeu “O masoquista está no parque?! Yes!”.
Guardo as melhores recordações daquele tempo. E sinto-me velho quando a minha mãe, devidamente informada pela Dona Silvina, que nos limpa a casa à sexta-feira, me vem falar das mais recentes fofoquices da rua:
O Mauro e a Elsa separaram-se.
A Carla aqui do 6.º andar está grávida.
O Cláudio teve uma filha. (Desculpa, mãe, o que é que disseste?!... )
O André teve uma filha, juntou-se, separou-se e voltou a juntar-se.
O Hélder enloqueceu e atirou-se da ponte.
O Martelão casou-se. (Desculpa, mãe, o que é que disseste?!...)
Está, enfim, tudo diferente. Já quase não vejo ninguém desta malta. A rua está diferente. E sinto saudades daquela boa vizinhança...
:)
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terça-feira, maio 29, 2007
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