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Por causa destas ideias o rapaz que vai para a cama com uma rapariga sente que a "engatou". Isto é, convenceu-a a fazer uma coisa que de outro modo não teria feito. Enganou-a. Cantou-lhe a "canção do bandido" e enganou-a. Meteu-lhe vodka no sumo de laranja e entonteceu-a. Como um lobo que aprende a assobiar para chamar a pomba à sua boca, papou-a. Ele é o espertalhão, a segunda intenção, o papador, o deixa-lá-que-eu-depois-telefono. Ela é a estúpida, a galinha, a papada, a será-que-ele-me-vai-respeitar-amanhã-de-manhã? Ele é o castigador. Ela vai ao castigo.
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Tudo isto é ridículo. Aos 20 anos, o homem aprende naturalmente que a vida não é tão simples. A certa altura repara que, quando ele está de costas a mudar o disco, a rapariga a quem ele pôs vodka no sumo de laranja sem ela ter visto, aproveita para deitar mais dois dedos de vodka para o copo dele. Quando ele não arranja coragem para perguntar se ela não quer passar a noite, ela anuncia, de mala remexida na mão, que perdeu as chaves de casa.
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De repente, enquanto ele a "come", há qualquer coisa, uma impressão, a louca ideia que ela se está a divertir tanto como ele... É então que ganha o insight da idade adulta. É que ele está a ser profundamente comido também. Entristece. Mói, desilude, já não apetece. Que triste é o desengano do aspirante a malandro quando aprende que não enganou ninguém.
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in "As Minhas Aventuras Na República Portuguesa"
by Miguel Esteves Cardoso
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